segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sambas

Primeiro,

As minhas pestanas teimam em colar-se no rés-do-chão dos meus olhos, a culpa não é minha de não ver o essencial. É que bater com a porta sabe bem e faz-nos parecer rebeldes, donos da razão sem razão alguma de ser. A vontade de aprender até parece fraqueza, quando é tão fácil dizer eu sei, eu faço, eu tudo julgo e não saio do lugar nem sei porquê. E nisto vão-se as bactérias boas da vida, as matérias que um dia quiseram ser apreendidas, o ritmo sem palco nos pés e nós todos apertados nos pés com unhas e palavras encravadas, coitadas, que dó.

Segundo,

Tenho um novo sol á minha frente. Ao que parece, os meus olhos começam a ser não de gente, mas de gente humana. Tenho tanto para dizer, sorrir, esbanjar por aí, nos ares, nas ruas - cantigas, palavreados e ditados que desditem a dor que eu sabia minha - tenho muito para aprender, mas tenho mais, tenho vontade. Não quero bater portas, quero-as escancaradas para que entre o bom e saia o mau para o que sou eu e ainda não sei. Não quero a razão, quero dançar e reaprender a ouvir o ritmo para onde a vida me leva.

Carreguem nos olhos de cima. Façam-nos rir, celebrem.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Alguma coisa de errado


Não há borrachas que apaguem gente. Existem camadas e camadas de tinta que insistimos em empurrar contra a dor própria da tela. Mas existe um fio de cabelo que fica à vista, mas existe uma pupila que nos pede mil vezes sentidas Lembra-me Lembra-me Lembra-me, Lembra-me senão Morro Dentro de Ti. Morrer dentro dos outros é uma tristeza inexplicável.
Mesmo quando a saudade se torna fraca e parece que seguimos em frente – o que é isto de seguir em frente?, em frente de quê e de quem? – ficam os pincéis para contar a história, as mãos, o sonho do que era para ser e a desilusão do que afinal foi e não foi,  em constante jogo de xadrez. Mesmo com os riscos e desculpas que pomos para nos justificarmos os riscos e decisões que tomámos, as pessoas e risos que perdemos, aquele bocado de nós que tanto amávamos e que já não somos, os fios de cabelo, as pupilas, os cheiros e tudo o mais para além do corpo - fica. Fica e muito. Mesmo quando não queremos ou não sabemos, a vida é uma réplica redonda das obras de arte do nosso passado. Das pessoas todas, das palavras mestres, dos silêncios cárceres.

Tens medo de pintar por cima. Sentes que há alguma coisa de errado nesse quarto, nessa boca, nesses olhos que são os teus dia sim, dia não. Nos tremores das mãos com falta de auto-estima para dizerem eu quero, eu sei, eu faço. Nas cabeleiras que coleccionas, de tanta gente que já passou e deixou lembrança. Sentes muito, pouco, já não sabes o que sentes. Pedes constantemente borrachas.

sábado, 9 de abril de 2011

Sonhos

Os caminhos que fazes ou escolhes são tudo o que tu queiras, mas sem inocência à vista ou na algibeira. São as palavras que não andam por não terem pés nem fé no que querem dizer. São o que resta na brecha que separa a parede e o silêncio. São, muitas vezes, por isso, tu no mais puro que te consegues sentir. Mas sem inocência.


O que encontras nos teus caminhos é mais do que o mundo a falar contigo. São sonhos do lado de cá, são histórias de quem não existe, na versão da lupa que te der mais jeito ao ego. Dicionários sem abecedários. Coisas difíceis de se entender mas que se entendem à primeira, se quiseres. Línguas enroladas, corpos sem equilíbrio. Muito espírito com costas largas.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Estupidez

Acho que não preciso de te dizer grande coisa para que tu saibas o que eu quero dizer. Levaste os risos, os copos de partir, os livros de rasgar, a tua roupa pela minha janela. Todas as certezas de ser completa não passaram das ilusões que são, mas também as levaste. Tinhas um argumento para provar, nunca o cheguei a entender- demasiado terror que me levasses também, sem o mecanismo de inverter a ordem natural dos lábios -  agradeço-te todos os dias.

Estúpida fui eu, nunca quem me viu chorar por me levarem os risos todos. Pelos arrepios com o que as tuas mãos me diziam no fundo da coluna. Pelos tremores de boca e de sexo quando me juravas que eu não tinha a noção do quanto me pertencias, do menino perdido que eras e no reflexo que eras de mim. Estúpida, eu. Pelo bater do coração na garganta quando, por momentos, tu querias, podias e mandavas. Pelo estúpido do fogo de artifício a mostrar alguma espécie de piedade pelo nosso momento fraco e piegas de amor. Pelas estrelas e pela nossa primeira discussão à séria. Por acreditar que eram mesmo lágrimas que corriam pelos teus olhos e que o teu talento não pendia para o teatro. Por relacionar as tuas bebedeiras com a tua sinceridade e saber que nos casávamos em Junho. Estúpida. Pela entrega quase total daquilo que chamas de corpo e que ia tão para além disso, pela força do teu braço tronco fogo queimei-me. Ninguém teve culpa, nem eu. Fui só estúpida, nada que não se cure.

As pessoas de todos os dias

Dou os bons dias, sorrio talvez demais, esforço-me até que pareça falsa aos meus olhos, desconfiados - sem, contudo, o ser. Não me aprovo nem só um bocadinho. Procuro um sinal de que sou boa gente e não sei como me explicar que são as cores dos meus medos que não me permitem ser mais. Eu sou, eu calo, eu penso. Não há lugares marcados, mas também não há lugares. As cores, os medos, eu sem boca que me faça entender.

Apareço dia sim, dia não, a relembrar-me do quanto preciso, urgentemente, de mudar. Do sentido que perdi, dos significados sábios de antes (que tolos) e das frases sem semântica ou pulsação correcta. As cores, o medo de perder a inocência que é ser original.

É preciso ter fé e fé é o que custa mais ter. No deus que há em nós,no pedaço bom que merecemos no mundo, na audácia que é parar de nos vermos fracos e sem sombra para descansar. E quando a coisa corre mal, fé no santo mais próximo e com as costas mais largas. Mandar as culpas para o ar como quem não se levanta para não cair. Sorrir muito e dar cor aos medos, implorar nos olhos para que gostem de nós.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Errare

- Estou forte e saudável, doutor.
- Bem vejo.
- Estou contente. Olhe para mim.
- Hm hm. Tens os dentes todos, bem vejo.
- E mudei, cresci. Não perdi nada que desse por perdido.
- A sério? Nada?
- Nada, sim. O apêndice, eu sei para onde foi. Os teus restos nas minhas entranhas, sei que se foram. Os amores das bodas de prata, os amigos de ouro,  as dores de ser sensível sei que se foram. Para onde foram. A sabedoria anterior, a febre interior, a musa que me fez quem era e nunca soube se era arte ou dor, foram. Essas, não sei para onde. Não deixaram bilhete, eu não deixei saudades. Foda-se.

Para onde me foi a alma? Diz-me, preciso tanto dela. Para poder chorar, para poder falar, para poder sentir que sou a que me sonho.Que sinto o que falo e que o que falo ainda tem valor. A minha língua já não lê nas linhas, desaprendeu a fazer-se adulta do que retinha nelas; os meus pés já não são crianças. E eu e as minhas birras Não-quero-isto-que-isto-faz-comichão: Tudo se fartou, foi com o apêndice e os teus restos.  A alma. A alma, a palavra sem desenho justo. Ao quanto me faz mais falta.

- Nada? E a alma?
- Não deixou bilhete, Eu não deixei saudades.
- Hm.
- Foda-se.