terça-feira, 14 de agosto de 2012

Amargo na boca

Há quem diga que faz bem cair, que é no chão que moram as melhores lições. Concordo.  Mas há quem pregue rasteiras aos demais para - seguindo a lógica - ajudar os outros a crescer e a aprender. Há gente como tu que é todo manias, dono da razão deste mundo e dos restantes, rei e senhor da palavra, do espectáculo, do circo, do riso. Não tens piada.

É que a primeira a cair aprende muito quando se habitua ao tecido nivelado onde desfilas e refilas com meio mundo que dizes não chegar aos teus calcanhares (a primeira a cair não prega rasteiras, sabe para que os pés servem). Só tenho pena que não percebas que o tecto e o fundo da sala e do corpo são confusos e a maior sabedoria está abaixo dos teus pés. No lado de lá do chão de vidro. Cuidado. Auch.

És cru e sem jeito, principalmente pelo formatado que estás pelas leis do mundo. És nu de um sentimento mais profundo. Eu, que estou aqui no andar de baixo, sei que sei muitas mais coisas de dentro - que tenho dentro, porque é lá que elas devem estar - do que quem me ensinou a escondê-las. E depois só a pessoa é que muda, a sombra é sempre a mesma. Sem surpresas. 
Hoje é noite, hoje é um copo de vinho intragável na minha mão e eu com o dedo espetado a imitar-te o snobismo e o amargo na boca intrínseco, a precisar sair por qualquer buraco. Sou maníaca por perder tempo com quem tem a mania das alturas e das altezas. Isso aflige. Arrebenta a bolha. Auch.

Quero que te fodas. É isto. Sou humana. 
Ah- ah.




terça-feira, 3 de julho de 2012

Cartão de memória

Não adianta dizerem-me que o cartão de memória precisa de ser esvaziado porque o que está lá dentro é vazio e sem sentido. Eu sei que existimos. Mesmo que digam que uma qualquer habilidade para distorcer o mundo e adoptar o que não existe como a realidade mais doce, um dia nós existimos e não me venham negar o meu pedaço de sanidade matinal. Eu fui feliz, pelo menos, porque fomos nós, nós dissemos e acontecemos, nós existimos. Não me tirem isso, por favor.


Num palco sem lágrimas, habitualmente o que faço é puxar pelas deixas mais felizes. Recordar-te cabelo a cabelo, unha por unha, dente por dente. Será que nós sempre a arranjarmos maneira de não sermos completos. O meu mal não é esquecer, é lembrar muito e tudo e ter de conviver com o que vem depois. Talvez eu entenda o meu quarto- escuro de hoje, os números apagados, a falta que não faço a ninguém. A culpa é toda e só minha - como tudo e a minha vida.

Trapo


Não há nada a fazer. Sou velha. Os meus amores morreram imperfeitos, num jardim que fui obrigada a abandonar. As minhas mãos tremem como criminosos em pânico, a minha boca seca sem palavras ou alguém a fingir que ouça. Não é fácil, é mesmo triste. E todos os dias tenho de ignorar o lamento A velha só chora, só chora, parece que alguém a maltrata ou algo que lhe valha. Dão-me rebuçados para dormir, desejam-me Bons sonhos D.a ocupante de lençóis cagados e deixo de existir, no fechar de uma porta branca, no canto de um corredor com cheiro a neftalina. Eles mentem-me, muitas vezes. Dizem-me que tudo está morto, lá fora - como, se eu cá dentro. Se conseguisse falar como dantes, ser como a outra, rir até como me lembro ainda de me dizerem que fazia. Não sei o que aconteceu aos meus amores, a mim própria, quem sou eu, que tempo e espaço. Quanto mais tempo e espaço. Não é fácil.

terça-feira, 12 de junho de 2012

a Deus


O que é isto? O que é isto de me sentir no algodão do céu, sem capa nem véu virados para o mundo? Esta paz de fim de tarde, no mais bonito dos meus sonhos? Imagens a correrem na minha cabeça de uma vida feliz. Um amor - perfeito com um bilhetinho de mim para mim. O melhor está para vir. O melhor pode vir. Agora, sim.

Eu quero e exigo-me ser feliz. Acredito no Bem supremo possível, de todo o Universo. Sou luz devolvida. Tu queres-me tão bem e julgas tão pouco. Eu sou o que sou. Posso ser o que sou. Agora, sim.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Ventos


Isto precisa de sair. É uma coisa tão difícil de ser explicada, tão comigo nascida - ou pelo menos, adoptada.É um vento que às vezes empurra para a frente e me leva a ser gente, da crescida e admirável; outras, encosta-se na nuca e não me deixa dar passo possível. Torna-me inútil, estupidificada, sem sentido no corpo e nas coisas que ele faz. Juro, há dias que ele se esconde dentro da minha boca e corrói peça a peça de mim. Não mata, mas mói. E quando mói -ah, isso, quando ele me mói - dá-me urticária nos dedos que adoram dançar, dores de cabeça de tanta merda lá andar, puxões nos cabelos, verborreia constante, varizes e derrames de uma vida feliz que vejo lá ao longe. E ele ri-se.

Não sei como querem que goste deste vento, desta coisa que não é vento mas talvez não tenha melhor palavra que o defina. Ou talvez seja o meu talento pouco, ou nunca o tenha sido, ou isto ou aquilo. É ele na nuca. Sou eu, maltratada à vista de todos por algo que não se vê, que às vezes até se suga para dentro de mim pelos buracos todos que tenho e se desmaia, feliz, nos meus pés parados, nos meus sonhos de cobras e lagartos. Ele ri-se tanto.

É só quando o odeio. É quando quase o odeio - ah, quando o odeio é tão à séria - que ele sai, rasteirinho, limpa-me as lágrimas, penteia-me o cabelo e sussurra-me palavras de amor. Em jeito de brisa, arrefece-me a raiva, abraça-me as costas e empurra-me com carinho de mãe para a frente. O céu é o limite.  E eu rio-me e ando, como gente crescida e admirável, como se não fosse nada. Como se esta coisa, que precisa tanto de sair de mim, fosse simplesmente eu.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Medo




Mas afinal, a tua alma é feita de quê? Não é por nada, é que já estou cansada de andar aqui às voltas com os pés pregados no chão. Que já te decidias ou te matavas de uma vez por todas as que me fazes a cabeça em papa Cerelac. Não sabes se sabes, não sabes se queres, não sabes que és uma sombra que aprendeu a amar a sua sombra. Palminhas para ti, no escuro ninguém te vê, mas esqueceste que ainda existes. E fodes-me a cabeça até ao último suspiro, antes de adormecer.

É complicado de entender, é o que dizem. É uma coisa intrincada, labiríntica, que obriga a pensar e a tentar entender o que ela quer. E é tão simples e somos só nós a vê-lo. E agora até aceito que sejam os meus olhos a distorcerem a brincadeira da nossa vida, mas tenho quase a certeza que não encontro outras palavras, outros caminhos. A culpa é tua. Não sabes se queres, se sabes, se és. De que é feita a tua alma, afinal?

De medo. E o medo não é nada.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Porque sim


Faz três dias mais algum tempo que não me falas. Que te esqueceste. Não é bem de mim, esqueceste-te simplesmente. E eu ia adorar dizer-te que preciso de ti como de trigo para a vida, como batom para o cieiro e de luz para as molduras. Ia adorar pegar em ti sem pudor possível e dizer-te que eu sou faminta de afectos, que nunca quis estar só e que se estou só, é porque já não sei estar de outra maneira. Iria, com certeza, dizer-te para te chegares a mim, estenderes os braços em frente e eu com a minha mão a circunvalar o braço esquerdo, o direito, Deixa-me entrar,  Dás-me um abraço?, morro feliz.

Não te julgo, minha irmã. Eu esqueço-me tanta vez. Não é de ti, esqueço-me. Não sei bem de quê. Provavelmente, de ligar a dizer que gostei de estar contigo, que me deste mais uns centímetros sem os saltos altos precisos. Provavelmente, de rir mais contigo, de ser mais criança no que é preciso. De ser mais crescida quando precisas de um adulto para te endireitar o caminho. De ser a luz que dorme no canto da tua pálpebra esquerda e que te faz sorrir, quando dormes. Esqueço-me, não faço por mal.

Admiro-me ainda que haja tanto rancor, entre nós. É que eu já nos tinha perdoado e não entendo a dor renascida que o músculo sente, por mais que digam que ele não dói. Uma porra, que dói e tira a vida. Quando tento dizer-te que os meus pés estão cansados, enrugados sem causa, cheios de desvios da menina que eu era para ser, a língua prende-se, gaguejo, praguejo e nunca mais acabo uma frase como deve ser. Que estranho sermos de tão perto e termos tanta areia a separar-nos, digo-me. Adormeço.

Depois, em breves segundos, lembro-me, claro como água: esquecemo-nos de alimentar o que nos fazia felizes, únicas, inseparáveis. Veio o mundo e soprou. Nós, palha, cada uma para seu lado- Nunca mais confiar em quem nos olha nos olhos e nos diz que nos Ama. Vou estar aqui sempre, És a pessoa mais importante da minha vida.

- Já não me apetece brincar mais contigo.
- Porquê?
- Porque sim.

Os teus abraços em vapor e eu, estatelada, de queixo no chão.