Dói-lhe. A carne amante do ferro em brasa. Os dentes embalados no berço moído. A aliança acariciada na valeta para onde se caga. O cabelo no prato, como jantar da semana. As unhas que são terra e já não têm nada de unhas- a terra nas feridas, que lhe antecipa o consolo da terra final. A memória que lhe atormenta o que não aguenta e não compreende. O anjo com a serra, que lhe vai mutilando pedaço a pedaço do corpo que já não lhe serve de nada, já não o quer, fá-lo desaparecer, Por favor! A dor. Dói-lhe ainda lhe doer passado tanto tempo, um mês, um dia, um ano de morte sem morte. A órbita que ainda vê, porque o mantém útil. Os ossos e o nariz, esse sangue que corre e corre e nunca mais chega ao fim. A idade que não deixa servir de comida aos outros como ele. Os outros, que vontade de espancar o mais fraco. A vontade, ainda assim, de viver.
Dói-me também a mim, quando sei. A capa que tenho, o céu em que sonho, os dias, os restos, a falta de choro... Porque isto vai existir sempre. Isso dói. Existir e esperar que alguém nos salve e diga que não existe dói. Enche-me da água que lhe foi proibida no corpo e da alma.
Uma canção de amor cheia de terra, para lamber as feridas.. Um momento de paz. A recordação divina.
'Amanhâ eu vou chorar. Hoje não... Amanhã.'
Frase escrita num dormitório de Auschwitz.
Nem precisava da imagem para criarmos um imaginário de dor. Muito bom.
ResponderEliminar"cabelo no prato, como jantar da semana. As unhas que são terra e já não têm nada de unhas- a terra nas feridas"