segunda-feira, 14 de novembro de 2011

ἀμνησία

 - ainda sinto a tua falta, sabes? como quem sente saudades do que sentiu e de quem foi ao sentir...tu sabes. é que há tardes que doem, sabes? mais do que qualquer pieguice ou corpo possa doer. há, sobretudo, exactos momentos em que te apetece gritar 'eu, eu é que sei sofrer às escondidas!', sabes? Fracções de segundo em que devoras todas as faltas de presença que ainda não listaste no teu diário de pele. mas tu. tu és a tatuagem que sou, hoje em dia. ocupas-me toda e nem migalhas deixas, para dias de mais fome. tu e o meu ego ocupam-me toda e eu fico encolhida debaixo da mesa, à espera que ninguém me note, que ninguém me limpe os olhos, que toda eu escorra pelo chão e não passe de um problema resolvido por uma esfregona.

- o teu jogo é sujo, não sabes brincar definitivamente. onde estão as memórias que antes vivíamos, num consolo pegado de termos algo em conjunto? tratávamo-las como uma planta de namorados, como um cachorro de estimação que se alimentasse de biberão dos nossos risos, do nosso abraço, da dança que éramos nós, irrepetível. Como dizes que me tens, se o que te perturba é a falta de passado, foi  o acordar e os significados que lhe deste?

- Não preciso de memória. Enquanto for viva, saberei que fui feliz, que tive histórias e não as quis contar. Que as esqueci, por causa de uma mísera tatuagem invisível. E que me esqueço constantemente do mal que te quis, do bem que te quero e que não te quero mais ver.


- Amo-te antes de adormecer, sabes?

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